Teresa Tapadas

Teresa Tapadas

Paradoxo num género musical classificado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, e em que a grande maioria do repertório que entra no ouvido de todos apela à nostalgia, saudade e intimismo, porque triste, a ribatejana Teresa Tapadas, com o seu inconfundível timbre de voz altivo, fresco e de colocação hierárquica e quase nobiliárquico ao nível da dicção, surpreende e deixa em pele de galinha quem a ouve, pela alegria que traz ao mais profundo do ser.

Orgulhosa das suas raízes – é ‘filha’ de Riachos, no concelho de Torres Novas, onde nasceu há 39 anos e sempre residiu -, Teresa, uns fascinantes olhos claros, janelas da alma que literalmente sonhava voar alto, ou não fosse o seu sonho de criança ser hospedeira, reencontrou-se no porto seguro do género musical que a portugalidade tem no ADN.

Quem nunca ouviu a sua voz radiante, cristalina, como os primeiros raios de sol que espreitam pelas frechas da persiana, e sentiu o ‘Fado Malhoa’ ou a ‘Avé Maria’ cantados pela antiga solista do Coro da Igreja de Riachos – que só após concluir a licenciatura em Gestão (2001) se dedicou de corpo e alma à paixão que Amália e, especialmente, Teresa de Noronha despertaram nos seus sentidos – ainda vai mais do que a tempo.

Com dois discos de inéditos e originais editados – ‘Meu Grão de Paraíso’ (2004) e ‘Traços de Fado’ (2012) – e um terceiro CD, gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, na forja para chegar ao mercado, Teresa Tapadas avança para um patamar superior da carreira.

À maturidade de atuar em mais de uma dúzia de países no globo, em palcos de dispensar apresentações – S. João (Porto), Trindade (Lisboa), Cité de la Musique (Paris) – soma a versatilidade de experiências enriquecedoras.

Foi assim que Teresa Tapadas abraçou os projetos ‘Entrevozes’, cuja segunda formação integrou (ao lado de Maria Armanda, Lenita Gentil e Alice Pires) e ‘Quatro Cantos’, com António Pinto Basto, Maria Armanda e José da Câmara. De projetos que marcaram época e geração, como tocar com a Orquestra Nacional da Moldávia, ou a Orquestra Sinfónica Urdmuta (Rússia), a par da Semana Fadista da Expo-98 ou do protagonismo tido no espetáculo «Raízes Rurais, Paixões Urbanas (coordenado por Ricardo Pais e Mário Laginha), sobrou sobriedade numa intérprete de eleição.

Quase 30 anos após deixar as danças no Rancho Folclórico Os Camponeses de Riachos, e do coro da Igreja, Teresa Tapadas tornou-se uma referência incontornável do fado e das músicas que nos revisitam a alma. A ‘Voz Revelação da Grande Noite do Fado do Porto 2000’ cresceu, viu mundo e é um deleite para os sentidos se arrepiarem. Ontem, hoje e amanhã, Teresa, que na infância dançava descalça, à boa maneira das gentes criadas no campo, fez-se um senhora de ouvir e chorar por mais. As agruras da universidade da vida moldaram e retocaram um timbre que nos faz voar a imaginação, ou não seja ouvir Teresa Tapadas um deleite para os sentidos.